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Discernimento espiritual para casais em crise Edição: 1.ª Edição Autor: Thácio Siqueira Categoria: Espiritualidade Católica / Filosofia da Alma Este livro tem caráter informativo, educativo e espiritual. As orientações não substituem orientação médica ou psicológica profissional especializada.
www.thaciosiqueira.com.br · Edição do Autor
"Onde não há quem governe, o povo cai; a salvação está na abundância de conselheiros." — Provérbios 11,14
Nenhum casal chega ao altar imaginando que um dia se sentará diante de um acompanhante para entender por que o amor que os uniu ficou tão cheio de arestas. E acontece com uma frequência silenciosa.
Este livro nasce de acompanhar casais nesse deserto. Não é manual de psicologia de casal e não substitui terapia clínica. É um itinerário espiritual em cinco fases, apoiado nos Padres do Deserto, na antropologia tomista e na doutrina da Igreja sobre o matrimônio: Entrada, Combate, Aprofundamento, Construção e Entrega. Não se percorre num fim de semana.
A primeira é ver o matrimônio como prisão. Feitos os votos, restaria suportar, custe o que custar, mesmo com dano real à própria pessoa. Isso confunde fidelidade com resignação, e não tem respaldo na doutrina. O cânon 1055 §1 define o matrimônio como consórcio de toda a vida ordenado por sua ín-
dole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole. O bem dos cônjuges está lá, com todas as letras, como finalidade. Um vínculo que se tornou sistematicamente destrutivo para um deles não cumpre aquilo para que existe.
A segunda distorção é o oposto: o casamento como fórmula mágica, capaz de resolver sozinho tudo o que os dois não resolveram antes de se unirem. O sacramento dá graça, e a graça opera através da liberdade e do esforço de cada um. Ela não faz o trabalho interior por ninguém.
Um obstáculo silencioso impede muitos casais de procurar ajuda a tempo. Em ambientes de fé existe o receio de que admitir dificuldade no casamento seja fracasso espiritual, e de que procurar terapia signifique falta de confiança em Deus.
Santo Tomás de Aquino escreve que a graça não suprime a natureza, mas a aperfeiçoa (Suma Teológica, I, q.1, a.8, ad 2).
Procurar ajuda competente é cooperar com os meios que a Providência já pôs à disposição. O medo do julgamento alheio, esse sim, é dos movimentos interiores que a tradição manda examinar: a vaidade de parecer um casal perfeito diante da comunidade cobra caro da saúde real da relação.
Nem toda dificuldade conjugal tem a mesma natureza, e confundir os dois tipos custa caro.
Crise de casal. Tensão, discussões, mágoas, dificuldade de comunicação, estresse externo que se descarrega em casa. Costuma ser recíproca: os dois contribuem, os dois sofrem, os dois têm parte na dinâmica. É reversível com trabalho conjunto.
Padrão de dano. O sofrimento corre majoritariamente numa direção só. Há relatos consistentes de medo, humilhação, desprezo ou agressão, ainda que apenas verbal. A pessoa que sofre percebe que está sendo diminuída na própria dignidade, e que isso se repete.
A diferença não está na intensidade do conflito. Está no padrão ao longo do tempo, e é sobre ele que qualquer discernimento sério precisa se debruçar antes de avançar.
Este livro parte de um princípio que não se negocia: nenhum sacramento prende uma pessoa dentro de uma relação em que há violência física, verbal ou psicológica. Isso não é delicadeza pastoral inventada agora: a Igreja tem instrumentos próprios, alguns com séculos de idade, e muita gente sofre calada por confundir três coisas distintas.
A separação é a mais antiga e a menos conhecida. Os cânones 1151 a 1155 tratam dela, e o cânon 1153 §1 diz que o cônjuge que provoca grave perigo da alma ou do corpo para o outro ou para os filhos, ou que de algum modo torna a vida comum demasiado dura, dá ao outro causa legítima de separação. E acrescenta a linha que quase nunca se cita: havendo perigo na demora, a pessoa pode afastar-se por autoridade própria, sem esperar decisão de ninguém. O vínculo continua de pé; o que cessa é a convivência. A exortação Amoris Laetitia, no número 241, vai adiante e reconhece que a separação pode tornar-se moralmente necessária para defender da violência o cônjuge mais frágil ou os filhos pequenos.
A nulidade é outra coisa, e para examiná-la existem os tribunais eclesiásticos. Ali não se desfaz um casamento: pergunta-se se houve casamento. O que funda o matrimônio é o consentimento, e o consentimento supõe liberdade, discernimento su-
ficiente e capacidade real de assumir o que se promete. O cânon 1095 reconhece que essas condições podem faltar desde o primeiro dia, por grave defeito de discrição de juízo ou por causas de natureza psíquica. O tribunal olha para o dia do sim, e não para o que veio depois.
O divórcio é de outra ordem. A Igreja sustenta que nenhum poder humano dissolve um matrimônio rato e consumado entre batizados, e o cânon 1141 diz isso. Separação e nulidade não são versões suaves do divórcio: uma interrompe a convivência sem tocar no vínculo, a outra verifica se o vínculo alguma vez existiu.
Falta uma linha da qual pode depender a segurança de alguém. O Catecismo, no número 2383, reconhece que, se o divórcio civil for a única maneira de garantir direitos legítimos, o cuidado dos filhos ou a defesa do patrimônio, ele pode ser tolerado sem constituir falta moral. Quem precisa de medida protetiva ou de guarda definida está usando o recurso que o direito civil oferece para proteger exatamente o que a Igreja também quer ver protegido. Ninguém precisa escolher entre a fidelidade e a própria segurança.
Dito isso, este livro recusa também a saída apressada de que toda crise conjugal deva terminar em separação. A maior parte
das crises são crises: momentos de purificação que, atravessados com verdade e com ajuda, fortalecem o vínculo.
Antes de qualquer decisão, e antes mesmo de qualquer conversa a dois, cada cônjuge precisa fazer sozinho, diante de Deus, um exame honesto sobre o que sente e desde quando sente.
Isso não é egoísmo nem falta de coragem. É a condição para que a conversa a dois, quando vier, seja fruto de discernimento e não reação impulsiva. O casal que pula esta etapa e corre para a confrontação repete os mesmos ciclos de acusação e defesa.
1. O que sinto, hoje, em relação ao meu casamento? Escreva sem filtro, sem se preocupar em soar espiritual ou razoável.
2. Desde quando sinto isso? Houve um momento em que a relação mudou, ou foi crescendo aos poucos?
3. Estou descrevendo um episódio pontual ou um padrão que se repete?
4. O que, dentro de mim, contribui para essa dinâmica? Minhas reações, meu silêncio, minha impaciência.
5. Se eu contasse isso a um amigo de confiança sem nenhuma maquiagem, o que eu diria?
Guarde o que escreveu. No fim do itinerário você vai reler estas páginas, e a comparação entre o que sentia no começo e o que sente no fim vale mais que qualquer avaliação feita de fora.
Há três modos de percorrer o caminho. Cada um lê sozinho, faz os exercícios e depois os dois partilham, que é o melhor quando ainda existe espaço seguro para o diálogo direto. Ou o casal percorre o livro em paralelo a sessões regulares, levando a cada encontro o que emergiu do capítulo. Ou, quando o cônjuge que sofre ainda não pode contar com a participação do
outro, o livro serve como discernimento pessoal, e continua valendo.
Em qualquer dos três, não pule etapas. Cada fase prepara a seguinte, e os exercícios pedem tempo real, com caneta e papel.
"Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, e não percebes a trave que está no teu?" — Mateus 7,3
Evágrio Pôntico e João Cassiano deixaram à tradição cristã um mapa dos movimentos interiores que afastam a alma da paz:
os oito logismoi, ou pensamentos-paixões. Gula, luxúria, avareza, tristeza, ira, acédia, vanglória, soberba.
O mapa foi pensado para o monge solitário, e funciona bem na vida de um casal, onde dois interiores em turbulência se encontram todos os dias sob o mesmo teto. O deserto do monge e a casa de um casal são o mesmo laboratório: em ambos a pessoa fica sem para onde fugir de si mesma. Bento XVI dedicou aos Padres da Igreja um ciclo inteiro de catequeses nas audiências gerais, de março de 2007 a junho de 2008, tratando-os como fonte viva para problemas de hoje. É com esse espírito que eles entram aqui.
Ira (orgē). Explosões, palavras que ferem, quase sempre desproporcionais ao fato que as provocou. A desproporção é o si-
nal: a raiz é mais antiga que o episódio.
Tristeza (lypē). Desânimo persistente, sensação de estar preso, afastamento silencioso do cônjuge.
Acédia. O tédio da relação, a negligência dos pequenos cuidados, o deixar-se levar sem nenhum esforço de renovação do afeto.
Avareza (philargyria). O dinheiro como instrumento de controle, a mesquinhez dentro de casa ao lado da generosidade para fora. Na raiz que Evágrio apontava está o medo do futuro, virado em razão para adiar tudo o que o outro pede.
Soberba e vanglória. A dificuldade de pedir perdão, a necessidade de ter sempre razão, o uso do saber ou da posição para diminuir o cônjuge.
Ele não serve para um cônjuge diagnosticar o outro à distância. Isso seria uma forma nova de soberba, vestida de discernimento. Serve para que cada um examine primeiro o que se move dentro de si.
Cristo é direto: antes de apontar o cisco no olho do outro, tire a trave do próprio olho (Mt 7,3-5). Aplicado ao casal, o exercício de nomear os logismoi começa obrigatoriamente por cada um sobre si mesmo, e nunca pelo cônjuge sobre o outro.
1. Sozinho, releia a lista acima e identifique: qual desses movimentos reconheço, com honestidade, como mais presente em mim ultimamente?
2. Em que momentos recentes ele apareceu na minha relação com meu cônjuge?
3. O que, na minha história pessoal, alimenta esse movimento?
Família, trabalho, feridas antigas.
4. Guarde este exame para levar ao acompanhamento ou à terapia. Ele não é arma para a próxima discussão.
Há um padrão que aparece muito no acompanhamento de casais. Uma pessoa chega à vida adulta sem nunca ter tido onde processar as tensões da própria história, e o casamento se torna, sem que ninguém tenha planejado, o primeiro espaço seguro o bastante para que tudo isso apareça. Explica, sem justificar, por que certos comportamentos surgem ou pioram depois do casamento e não antes: a pessoa não mudou de repente, ela apenas passou a ter alguém próximo o suficiente.
O reconhecimento serve para duas coisas. Ajuda o cônjuge que sofre a não se sentir culpado por ter provocado algo cujas raízes são anteriores à relação. E aponta o que precisa acontecer: quem descarrega tem de aprender, com ajuda, a processar essas tensões de outro jeito, e não apenas a se desculpar depois de cada episódio.
Entre os oito, a ira é o que destrói mais depressa o clima de confiança de uma casa, porque suas manifestações são imediatas e visíveis. O tom que sobe, a palavra áspera, o xingamento que sai antes que a razão consiga intervir.
Cassiano dedica ao espírito da ira um livro inteiro das Instituições Cenobíticas, o oitavo, e a imagem que ele usa é a de um veneno que cega o olho do coração. Enquanto a ira ocupa a alma, a pessoa não julga direito nem as próprias palavras nem o efeito delas sobre quem as recebe. O remédio que ele propõe não é conter a explosão no momento em que ela vem, e sim arrancar a raiz antes.
Isso não isenta ninguém de responsabilidade pelo que diz. Significa que o trabalho começa antes: no cansaço acumulado, na frustração não tratada, na ferida antiga que qualquer gesto do cônjuge reabre. Cuidar só do sintoma, sem tocar no que o alimenta, é podar os galhos de uma planta doente.
Falar do fato e do sentimento, nunca do caráter da pessoa.
«Fiquei magoado quando isso aconteceu» funciona; «você é egoísta» fecha a porta.
Cortar as generalizações absolutas. «Sempre» e «nunca» raramente são verdade e sempre inflamam.
Não discutir decisão importante com fome, sono ou raiva aguda. Adiar aqui é prudência, e não fraqueza.
Há decisões que não podem ser tomadas no impulso, nem no calor de uma discussão, nem na euforia de uma reconciliação recente.
A tradição espiritual, de Santo Inácio aos Padres do Deserto, ensina que uma decisão amadurecida nasce da paz e não da urgência. Um discernimento sério sobre uma questão de casal segue quatro passos.
Suspender a decisão por um tempo determinado, evitando tanto o sim apressado quanto o não definitivo tomado em desespero.
Sustentar esse tempo com oração, pessoal e conjunta, pedindo luz e não confirmação do que já se deseja.
Observar os frutos. Uma decisão que nasce de Deus tende a trazer paz mesmo em meio à dificuldade. Uma decisão que nasce do medo ou da pressão aumenta a ansiedade à medida que se aproxima.
Conversar com alguém antes de fechar: um acompanhante espiritual e, quando for o caso, também um profissional competente.
O prazo ajuda porque tira a decisão do calor do dia, e pertence ao casal. Nenhum acompanhante tem autoridade para impor um, nem para dizer o que deve ser decidido no fim dele.
Convém dizer com clareza: trazer uma criança ao mundo não resolve uma crise conjugal. Na melhor das hipóteses adia; na pior agrava, porque soma às tensões existentes o cansaço próprio dos primeiros anos de um filho. Isso não significa que um casal em dificuldade jamais deva ter filhos. Significa que essa decisão pede tempo de discernimento verdadeiro, e não serve como tentativa de consertar o que está fragilizado.
Sobre ela pesam fatores externos que são reais: idade, expectativa da família, calendário social. Reconhecer a pressão é diferente de deixar que ela ocupe o lugar do discernimento. Uma decisão tomada porque já é hora serve a uma cronologia alheia. Isso não manda ignorar dados objetivos como a idade fértil; manda recusar que qualquer um deles, sozinho, tenha a palavra final.
Para o tempo de indecisão, proponho um momento semanal, curto e simples, de oração conjunta.
Um silêncio inicial, para deixar de lado as preocupações do dia.
A leitura de uma passagem breve da Escritura, escolhida antes.
Por exemplo 1 Coríntios 13, sobre a caridade, ou o Salmo 139, sobre o conhecimento que Deus tem de cada um.
Cada um diz em voz alta, sem interrupção do outro, o que sente diante de Deus sobre a decisão em curso.
Encerramento com uma oração de entrega, o Pai-Nosso ou uma oração livre a duas vozes.
Há um cuidado a tomar, e ele é grave. As palavras do discernimento podem virar pressão disfarçada, às vezes de boa-fé, às vezes não.
Dizer «vamos discernir» quando já se decidiu o resultado esperado é uma dessas distorções. Usar a oração como argumento de autoridade, no formato «rezei e senti que Deus quer que você...», é outra, e é mais grave, porque põe a vontade de um na boca de Deus para vencer o outro.
O discernimento verdadeiro respeita a liberdade dos dois até o fim, e aceita como legítimo o resultado que emergir, mesmo quando não é o que se esperava no início.
1. Definam juntos um prazo razoável para a questão em aberto.
Dias, semanas ou meses: o prazo é de vocês.
2. Escolham um dia fixo da semana para a oração conjunta descrita acima.
3. No fim do prazo, revejam juntos: houve mudança real na relação? A comunicação melhorou? Cada um se sente mais em paz?
"Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para edificação, conforme a necessidade, para que dê graça aos que a ouvem." — Efésios 4,29
Um acompanhamento espiritual individual pode virar, sem que ninguém tenha essa intenção, o lugar onde cada cônjuge deposita as queixas sobre o outro sem que nada disso chegue ao casal. Quando isso acontece, ele alivia cada um separadamente e não reconstrói nada do que é comum aos dois.
Isso não desautoriza o acompanhamento individual, que costuma ser o espaço onde a pessoa consegue nomear o que sente antes de ter coragem de dizê-lo ao outro. O risco está em transformá-lo em destino final, em vez de preparação para o encontro a dois. O conteúdo que importa, o que fere, o que preocupa, o que se deseja mudar, precisa encontrar em algum momento um espaço conjunto. Senão a reconstrução acontece em dois indivíduos paralelos que compartilham endereço.
Para casais que ainda não têm terapia de casal regular, ou como preparação para ela, este roteiro funciona. Ambiente calmo, sem pressa, sem interrupções.
Cada um tem um tempo igual e não interrompido para falar, por exemplo cinco minutos, começando sempre por frases que descrevem a própria experiência: «eu me sinto», «para mim».
Nunca por «você sempre».
Quem escuta apenas escuta, sem preparar a defesa enquanto o outro fala.
Antes de responder, faça pelo menos uma pergunta de esclarecimento sobre o que foi dito.
Ao final, cada um resume em poucas palavras o que ouviu do outro antes de responder. Isso garante que a mensagem chegou.
A conversa termina sempre com um gesto pequeno e concreto de boa vontade: um pedido, um combinado, um sinal de afeto.
Nunca só com a exposição do problema.
Antes de marcar essa conversa, cada um escreve sozinho três coisas que gostaria que o outro soubesse sobre como tem se sentido, na estrutura «eu sinto... quando... porque...», e mais uma coisa que reconhece que precisa mudar em si mesmo.
Há ainda uma regra que vale para os piores dias: guardar um mínimo de cortesia. Não porque o sentimento peça, mas porque a virtude se exercita justamente quando custa.
A tradição cristã sempre distinguiu o perdão como decisão da vontade do perdão como sentimento espontâneo de reconciliação. É possível, e muitas vezes necessário, decidir perdoar antes de sentir o perdão por inteiro. A decisão abre caminho para que a graça trabalhe, ao longo do tempo, também sobre o sentimento.
Pedir a um casal em crise que sinta perdão imediato é irrealista e chega a ser cruel. Pedir que decida, com a vontade, começar o caminho do perdão é possível, e é o que importa nesta etapa.
Um pedido de perdão genuíno tem três marcas. Nomeia o dano causado com precisão. Não se esconde atrás de generalidades do tipo «desculpa se te magoei de alguma forma». E vem com um compromisso concreto de mudança, não apenas com boa intenção.
O pedido que não tem as três não é perdão pedido: é o fim da discussão comprado a preço baixo, e o casal sente isso mesmo sem saber nomear.
"Entrega ao Senhor o teu caminho, confia nele, e ele agirá." — Salmo 37,5
Este é o ponto em que um livro espiritual pode fazer mal a alguém, e por isso ele vem escrito devagar.
A tradição descreve estados que se parecem muito com quadros clínicos. A acédia dos monges, a tristeza que não passa, o tédio das coisas de Deus, a secura na oração. Dentro de um casamento em crise esses estados aparecem quase sempre, e a origem deles pode ser espiritual ou pode ser doença. Tratar uma coisa como se fosse a outra atrasa a pessoa durante meses.
A acédia é seletiva. A pessoa não consegue rezar, e consegue outras coisas. Larga a oração da manhã e passa a hora no telefone. Não vai à missa e vai ao futebol. Adia a conversa com o cônjuge e assiste a três episódios de uma série. O querer continua funcionando; ele apenas se recusa a ir naquela direção.
A depressão apaga o querer inteiro. A pessoa não reza, e também não come direito, não sai da cama, não responde
mensagem, não sente prazer no que sempre gostou. O sono muda. O corpo pesa. Não sobrou vontade para lugar nenhum, inclusive para o casamento.
A pergunta que separa as duas cabe numa linha: é só com Deus, ou é com tudo?
Se é só com Deus, há trabalho espiritual a fazer, e este livro trata dele. Se é com tudo, a primeira providência é médico. Não se trata de rezar em lugar de tratar, e não é preciso escolher: começa-se pelo tratamento, e continua-se rezando enquanto ele acontece.
Isso importa dentro de um casamento por um motivo prático.
Um cônjuge deprimido parece, de fora, um cônjuge que desistiu da relação. A conclusão errada aí custa anos.
Ideia de não querer viver, de sumir, de que os outros ficariam melhor sem a pessoa, é urgência. Não se marca para a semana que vem. Procura-se atendimento médico agora, e no Brasil o Centro de Valorização da Vida atende de graça pelo telefone 188, a qualquer hora do dia ou da noite.
Ansiedade intensa que não cede, insônia prolongada, tristeza profunda que dura. Um padrão de agressão, verbal ou física, que se repete apesar dos esforços de diálogo. Dependência emocional ou financeira que impede a pessoa de enxergar as próprias opções. Histórico de dano que se acumula, mesmo com melhoras aparentes entre um episódio e outro.
Recomendar apoio clínico não desautoriza o acompanhamento espiritual. A alma e a mente habitam a mesma pessoa, e cuidar de uma sem atenção à outra é cuidado pela metade.
Isto precisa ser dito sem rodeio. Se a situação evoluir para ameaça, intimidação ou qualquer forma de violência que gere medo físico real, a prioridade deixa de ser o ajuste do casamento e passa sendo a segurança da pessoa.
Isso não é derrota do casal nem fracasso do discernimento espiritual. É reconhecer que a vida e a integridade vêm antes de qualquer outro bem, inclusive do bem legítimo da unidade conjugal.
Quem está nessa situação pode e deve procurar apoio, de família, de autoridades e de serviços especializados, sem que isso seja traição ao sacramento ou falta de fé. No Brasil, a Central de Atendimento à Mulher atende pelo 180, e a emergência policial pelo 190. Deus não pede o sacrifício da própria segu-
rança em nome da permanência formal numa relação que causa dano grave e recorrente.
Chegado o fim do itinerário, resta o gesto mais antigo da vida espiritual: entregar a Deus o que não está nas mãos humanas resolver agora, o tempo de cura, a mudança de comportamento do outro, o desfecho que ainda não se conhece. A entrega é o fruto maduro de quem já discerniu com seriedade e já fez a própria parte com verdade.
1. Releia, sozinho, o exame de entrada que você fez no início deste caminho. O que mudou desde então?
2. Nomeie o que ainda está em aberto e o que já encontrou alguma paz.
3. Encerrem juntos, se for possível: «Senhor, entregamos em Tuas mãos este caminho que ainda não vemos por inteiro. Dános verdade para nomear o que dói, coragem para mudar o que está em nós, e paz para confiar o que ainda não podemos resolver sozinhos. Amém.»
Procurar terapia de casal significa que faltou fé? Não. A graça não dispensa os meios humanos ordinários: ela opera através deles.
É pecado pensar em se separar? Pensar, por si só, não é pecado. Costuma ser sinal de sofrimento real que precisa ser acolhido e discernido, e não reprimido. Discernir a sério essa possibilidade, com oração e acompanhamento, é diferente de agir por impulso no calor de uma discussão.
Buscar terapia, acompanhamento psicológico ou mesmo apoio jurídico e de segurança, quando a situação exige, não significa que o discernimento espiritual falhou. Significa que ele amadureceu o suficiente para reconhecer os limites de cada ferramenta.
Nota ao acompanhante, orações e o calendário de doze semanas "Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo." — Gálatas 6,2
Este itinerário foi escrito para casais, e uma palavra é devida também a quem acompanha, seja padre, terapeuta espiritual ou diretor de consciência.
Quando o mesmo acompanhante conheceu os dois lados de um casamento, surge um risco discreto: o que se ouviu de um no passado passa moldando silenciosamente a escuta do outro no presente, e se constrói na cabeça de quem escuta uma síntese do casal que nenhum dos dois validou. O acompanhante prudente nomeia esse risco para si mesmo, e considera sugerir que um dos cônjuges procure outro profissional.
Ajudar alguém a discernir é uma coisa; decidir por essa pessoa é outra. Sugerir um prazo de reflexão é diferente de sugerir o que deve ser decidido ao final dele, e essa diferença precisa aparecer nas palavras que se usam.
Dizer que nenhum sacramento obriga alguém a permanecer numa relação violenta é diferente de recomendar a separação.
A primeira é verdade doutrinária protetora, que tira da pessoa uma culpa infundada; a segunda seria decisão concreta, que pertence a quem sofre o dano. Ao comunicar a primeira, faça a distinção em voz alta.
O acompanhamento espiritual não substitui avaliação clínica quando há sinais de risco à saúde mental ou à segurança física de alguém. Encaminhar, sugerir e mesmo insistir com gentileza para que a pessoa procure apoio profissional é parte do bom acompanhamento, e não uma falha dele.
Senhor, não sei ainda o que fazer com o que vivo, mas sei que Tu já conheces cada detalhe desta história antes mesmo que eu a nomeasse. Dá-me olhos para ver com verdade, sem exagero e sem negação, o que se passa em mim e entre nós. Que eu não tome decisões pelo medo, nem pela pressa, mas pela paz que só Tu podes dar. Amém.
Senhor, colocamos diante de Ti esta conversa que ainda tememos ter. Que as palavras que dissermos edifiquem, e não destruam. Que saibamos escutar antes de responder, e amar mesmo quando for difícil concordar. Une o que ainda está dividido em nós, e dá-nos a humildade de reconhecer, cada um, a própria parte no que precisa mudar. Amém.
Senhor, Tu vês minhas lágrimas antes que eu as derrame. Não me deixes acreditar que devo aceitar em silêncio o que fere minha dignidade de filha ou filho Teu. Dá-me discernimento para distinguir a cruz que devo carregar da ferida que devo tratar. Coloca em meu caminho quem possa me ajudar a enxergar com clareza, e dá-me coragem para buscar essa ajuda. Amém.
Senhor, entrego em Tuas mãos este caminho que ainda não vejo por inteiro. Dá-nos verdade para nomear o que dói, coragem para mudar o que está em nós, e paz para confiar o que ainda não podemos resolver sozinhos. Seja feita, em nós e entre nós, a Tua vontade. Amém.
O itinerário cabe em doze semanas, uma etapa por semana, e o ritmo pode ser adaptado ao de cada casal e à orientação de quem os acompanha.
Semanas 1 e 2, Entrada: exame individual de entrada, cada cônjuge separadamente; depois, partilha inicial com o acompanhante, também individual.
Semanas 3 a 5, Combate: estudo do mapa dos logismoi e reconhecimento individual; trabalho sobre o movimento dominante; registro diário das próprias reações.
Semanas 6 a 8, Aprofundamento: definição a dois da questão a discernir e do prazo; início da oração semanal conjunta; revisão intermediária.
Semanas 9 e 10, Construção: preparação individual escrita para a conversa; realização da conversa estruturada a dois.
Semanas 11 e 12, Entrega: avaliação da necessidade de apoio clínico; exame final, oração de entrega e próximos passos.
Para a Entrada, Gênesis 2,18-24, a criação do casal, e Mateus 7,1-5,atraveeocisco.
Para o Combate, Romanos 12,9-21, o amor sem fingimento e a paciência na tribulação.
Para o Aprofundamento, Salmo 139, o conhecimento que Deus tem de cada um, e Filipenses 4,6-9, a paz como fruto da oração confiante.
Para a Construção, 1 Coríntios 13,1-13, o hino à caridade, e Efésios 4,25-32, a verdade e a bondade na linguagem entre os que se amam.
Para a Entrega, Salmo 37 inteiro, e Mateus 19,3-9, o ensinamento de Cristo sobre o matrimônio e a dureza de coração.
Este itinerário não promete caminho fácil nem garante desfecho específico. Nem poderia: o resultado não depende de um livro, e sim da liberdade viva de duas pessoas diante de Deus.
O que ele oferece é um mapa. Uma forma de nomear o que se vive, de discernir com serenidade o que ainda não está claro, de construir juntos o que só pode ser construído a dois, e de entregar, no fim, o que só a Providência completa.
Que cada casal que percorrer estas páginas encontre, mais do que respostas prontas, o encorajamento para caminhar devagar, com verdade, e sem medo de pedir ajuda quando ela for necessária.
Se houver violência ou medo de dano físico, a segurança vem antes de qualquer discernimento. No Brasil, a Central de
Atendimento à Mulher atende pelo 180, a emergência policial pelo 190, e o Centro de Valorização da Vida pelo 188.
Thácio Siqueira é terapeuta espiritual católico. Foi monge durante quinze anos e depois passou dez anos em Roma, onde estudou Filosofia e Teologia no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum e fez cursos de formação terapêutica. Pesquisador autônomo em antropologia filosófica e nos Padres do Deserto, acompanha pessoas e casais há mais de vinte anos. Mora em Brasília, é leigo e casado.
O acompanhamento que oferece é humano e espiritual. Não é psicoterapia, não é terapia de casal e não substitui tratamento de saúde.
As sessões são online, com hora marcada, e duram cinquenta minutos. Atendo pessoas e casais. Quem está em terapia de casal, acompanhamento psicológico ou tratamento psiquiátrico continua nele: o que se faz aqui soma, e nunca entra no lugar.
Há também os livros, os cursos e um grupo gratuito no WhatsApp com uma palavra dos Padres do Deserto todo dia.
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